House of the New Zodiac

não-sobrejetividade linguística

não-sobrejetividade linguística
ou, um RPG linguisticamente brasileiro

recentemente fui num evento de RPG, e fiquei abismado com a quantidade de RPGs indie inspirados em diversos aspectos da cultura brasileira: quinhentismo (Thordezilhas), afrofuturismo (Quilomb0), cangaço (Cordel do Reino do Sol Encantado), folclore dos povos originários (Causos RPG)... isso é muito bom!!! finalmente, estamos produzindo RPGs que refletem a nossa cultura, ao invés dos mitos dos lugares de onde nossos colonizadores vieram. pode-se dizer até que todos esses jogos são bons exemplos de uma nova leva, semi-recente, de RPGs verdadeiramente brasileiros.

mas enquanto eu caminhava pelos corredores lotados do evento, fiquei me perguntando: será que essa é a única forma?

eu tenho uma proposta indecorosa, um caminho alternativo pra chegarmos num RPG “fundamentalmente brasileiro”. e se, ao invés de nos baseamos nos mitos, na história e na geografia do nosso país, nos basearmos em uma outra via através da qual nos expressamos particularmente como povo: o nosso idioma?

porque afinal de contas, nosso patrimônio cultural não envolve apenas Lampião e a Cuca, mas também simples palavras como saudade.

parte 1: palavras são complicadas e traduzir é difícil

hoje, a maior parte do material de RPG publicado em português é traduzido do inglês -- especialmente quando pensamos em nichos como OSR e NSR (nos quais eu me insiro). e quando traduzimos algo de um idioma pra outro, existe um processo inevitável de contorcionismo do idioma de destino que normalmente é visto como “necessário” e “inofensivo”, mas que pode acabar limitando as possibilidades do que somos capazes de representar naquele texto -- e quando o texto é um livro de RPG, pode consequentemente limitar as realidades que sequer somos capazes de imaginar nas nossas reuniões de faz-de-conta.

como dizia o pedreiro, nos voltemos ao concreto: vejamos o sistema indie de RPG “Cairn”, cuja 2ª edição está sendo trazida para o Brasil pela Nozes Games Studio. nesse sistema, cujo cenário é descrito pelo autor Yochai Gal como uma “fantasia escura & misteriosa”, há 20 classes -- ou backgrounds -- disponíveis para as jogadoras escolherem. muitas dessas classes são simples de entender e de traduzir, como BEAST HANDLER (domador de bestas), FUNGAL FORAGER (catador ou colecionador de fungos) e BARBER-SURGEON (barbeiro-cirurgião, uma profissão bem medieval que realmente existiu (sim, o cara que cortava o teu cabelo também te amputava quando necessário, bota medieval nisso)); no entanto, a vasta maioria dessas classes é extremamente difícil de se traduzir, porque ou é um neologismo inventado pelo autor usando a criatividade justapositiva do inglês (como BONEKEEPER e GREENWISE), ou -- e esse é o meu ponto --, porque são palavras que existem no inglês, mas que exprimem conceitos que não existem no português.

algumas das classes de cairn (livro gratuito na íntegra)

centremo-nos na classe mais próxima do tradicional Thief: o CUTPURSE. ora, cutpurse é literalmente cut + purse, “corta + bolsas”, i.e. uma pessoa que ganha a vida roubando terceiros num ambiente urbano (onde bolsas são popularmente encontradas, e encontram-se à disposição para receberem cortes). essa é uma palavra que genuinamente existe no inglês, apesar de como atestado pelo Google ngram viewer, ela ser um pouco antiga:

(fonte: google ngram viewer)

e veja, isso não é um acidente por parte de Yochai Gal -- ele não é um viajante no tempo que, perdido com as inovações tecnológicas da modernidade, decidiu publicar RPGs que remetam à sua época -- não! ao definir coisas tão fundamentais do sistema (a classe dos personagens!!) usando palavras novas que ele acabou de inventar e antigas que os jogadores podem ter ouvido mas não conhecem muito bem, busca-se com isso criar um cenário estranho, que retira as jogadoras da zona de conforto da fantasia típica, enquanto ao mesmo tempo as convida a explorar e re-definir o que aqueles termos significam exatamente em cada mesa (reforçando os princípios anti-canon do jogo). é uma decisão de design que foi tomada de forma consciente, com uma intenção em mente.

então por tudo que é mais sagrado, não podemos traduzir CUTPURSE como ladrão!!!

como traduziríamos “cutpurse”, então? como você traduziria, se fosse o encarregado de tal tarefa no Studio Nozes Games? há algumas opções…

as opções neologísmicas

a primeira opção é talvez a mais óbvia: ir pelo caminho literal e traduzir CUTPURSE como "corta-bolsas". mas aí o nome da classe soa esquisito porque a gente simplesmente não tem esse termo no português. você vai dizer "ae galera vocês podem jogar de corta-bolsas" e seus interlocutores certamente entenderão a essência da classe, mas só depois de parar e pensar durante múltiplos segundos pra entender o que cargas d’água você quis dizer, porque eles nunca ouviram esse termo antes.

seus jogadores ao conhecerem o corta-bolsas (fonte)

isso é um problema? não necessariamente! na real, essa é literalmente a definição de calque linguístico: um jeito específico de criar palavras que se dá quando pegamos um termo de um idioma X e traduzimos ele para um idioma Y de maneira literal, componente-por-componente -- como por exemplo "controle remoto" (cujo original é literalmente remote control), "lua-de-mel" (literalmente honeymoon), ou “golpe de estado” (francês coup d’état). quando traduziram "honeymoon" do inglês pro português como "lua-de-mel", ninguém entendeu absolutamente nada também, né? afinal o que que tem numa "lua" que a permite ser de "mel"?? e mesmo que tivesse, o que diabos isso teria a ver com um casamento??? não não, a pessoa que traduziu "honeymoon" pra "lua-de-mel" muito provavelmente teve que explicar pelo menos umas cinquenta vezes até o termo pegar -- mas pegou. então se quisermos traduzir "cutpurse" como "corta-bolsas", estaremos em boa companhia, já que tantas palavras e termos do português vieram por esse mesmo trajeto.

mas esse não é o único caminho: e se não traduzirmos CUTPURSE ao pé da letra, mas em lugar disso tentarmos preservar o seu espírito? afinal de contas, o Brasil tem uma das maiores taxas de violência urbana do mundo! certamente teremos algumas palavrinhas pra cutpurses dando sopa, certo? e ô se temos.

as opções correntes

vamos dar uma olhada nas palavras que usamos atualmente, no nosso dia-a-dia, pra nos referirmos a alguém que comete furtos e/ou roubos. isso é bem arbitrário (e regional), mas pelo menos aqui no Rio de Janeiro, eu diria que temos primariamente quatro termos:

  1. ladrão
  2. assaltante
  3. trombadinha
  4. pivete

todas opções possíveis!

infelizmente, nenhuma dessas opções exprime perfeitamente o sentido de CUTPURSE, porque nenhuma consegue ser simultaneamente correta e específica. por exemplo: "ladrão" é correto (um cutpurse é um ladrão), mas não é específico (vários ladrões não são cutpurses -- por exemplo, políticos podem ser ladrões, como muitos slogans eleitorais nos atestam); por outro lado, trombadinha é específico (fortemente associado a pessoas que cometem furtos em ambientes urbanos) mas não é correto (porque o termo é associado primariamente a crianças, enquanto "cutpurse" pode ser um adulto (e no seu RPG, muito provavelmente o será (ou não, eu sou um blogpost, e literalmente não sei nada sobre a sua vida))). não vou olhar pra todos mas tenho certeza que vocês conseguem completar a análise

quanto mais tempo você olhar pra esse diagrama de venn menos sentido ele faz. tente não pensar muito

tudo isso pra dizer: não encontramos nada muito promissor no nosso vocabulário ativo, i.e. as palavras que temos em cima da nossa mesa… vamos começar a cavucar os baús.

a opção arcaica

se olharmos para as palavras que temos no dicionário mas que não costumamos usar muito -- ou até mesmo reconhecer --, vemos que o nosso leque de opções para “alguém que comete furtos em um ambiente urbano” se expande enormemente, como se descobríssemos que duas páginas do cardápio estavam coladas e que na verdade o restaurante também serve sobremesa:

  1. larápio
  2. gatuno
  3. pilhante
  4. salteador
  5. ratoneiro
  6. mão-leve
  7. agafanhador
  8. ventanista
  9. pula-ventana
  10. descuidista
  11. punguista
  12. pichelingue

neste momento, preciso abrir o jogo com vocês: eu nunca tinha ouvido falar em 90% dessas palavras antes de procurar explicitamente por “sinônimos de ladrão” no google. e sabe de uma coisa? eu estou feliz por ter feito isso, porque essas palavras são incríveis e excitam minha imaginação de uma maneira empolgante -- mesmo sem conhecê-las, sinto que já as entendo. “mão-leve”: fácil de entender, alguém que é habilidoso com pegar coisas sem ser notado; “pula-ventana”: literalmente alguém que entra na casa dos outros pulando a janela (também chamada de ventana!); “descuidista”: alguém que se aproveite do descuido dos outros. “ratoneiro”: alguém que… uh… rouba igual um rato!?! seria o oposto de um gatuno?? já vejo dois personagens: o gatuno e o ratoneiro, lado-a-lado, dupla dinâmica meio pinky e o cérebro… conhecida como bichos escrotos… roubando cidades a torto e a direito… alguém vai anotando

vai falar que eles não tem uma vibe de gatuno e ratoneiro

todas estas DOUZE opções são palavras elegantes e curiosas, mas pra ser justo, precisamos aplicar os mesmos critérios de antes: são específicas e corretas? e aí temos tanto o problema quanto a solução. o problema é que como estão todas em níveis variados de desuso (o termo oficial é “arcaísmo”), é difícil saber o contexto particular em que cada uma delas eram usadas quando surgiram, apesar de podermos fazer uma análise etimológica freestyle pra captarmos a vibe de cada termo (como eu fiz acima). mas isso também é a solução: como ninguém está usando essas palavras, ninguém vai se importar se a gente ressignificá-las, certo? podemos fazer o que quisermos com elas! e olha que legal, pegar uma palavra antiga ainda combina com o que o fato de CUTPURSE ser uma palavra antiga também! é o caminho perfeito!!

dito tudo isso, caso eu fosse o tradutor oficial de Cairn 2ª edição para a Games Nozes Studio, minha escolha final para traduzir CUTPURSE seria, dentre as opções acima, o curto e neutro MÃO-LEVE. sim silvio, resposta final.

dois segredos

eu preciso abrir o jogo com vocês, de novo. tem um termo que se encaixa muito bem em CUTPURSE, mas que eu não incluí em nenhuma das duas listas acima porque na verdade ele não é uma palavra, mas sim uma locução: “batedor de carteiras”.

é, de certas formas, o match perfeito: não apenas remete a alguém que comete furtos em um ambiente urbano (onde carteiras são encontradas, e estão à disposição para serem “batidas”), mas também segue até a mesma estrutura de “verbo + objeto de vestimenta” da classe original. e caso “Batedor de Carteiras” pareça muito longo, podemos até diminuir pra “bate-carteiras” ou algo do tipo! (apesar de isso parecer a punchline de uma piada ruim que você leria no ñ.intendo em 2010).

eu não mencionei esse termo antes, mas não foi porque ele resolveria toda essa discussão em 1 parágrafo e destruiria minha linha argumentativa antes dela sequer ter tido a chance de te convencer; não. (ok, talvez). em larga parte eu não incluí esse termo -- esta LOCUÇÃO SUBSTANTIVA -- porque na verdade você não está lendo um texto sobre tradução… você está num reality show.

parte 2: palavras são complicadas e traduzir é limitante

as luzes se acendem. sobe uma cortina. uma a uma, várias palavras vão entrando no auditório, e você percebe que, olha só, são as palavras que vimos hoje! tal qual num final de Survivor, os participantes eliminados retornam perto do encerramento, num grande conselho tribal -- e a opinião deles pode mudar radicalmente o resultado do jogo.

olhem pras palavras legais que vimos hoje, mas que jogamos metaforicamente no LIXO por serem INADEQUADAS: larápio. gatuno. trombadinha. ratoneiro. (eu, o apresentador, vou falando seus nomes e a câmera vai dando um zoom em seus rostos pareidólicos, conforme elas sobem ao palco). o problemático pivete. o enigmático pichelingue. os gêmeos pula-ventana e ventanista. todos eles estão aqui, olhando para “mão-leve” e “corta-bolsas” e “bate-carteiras”, e pensando: por que não eu? o que eles tem que eu não tenho?

agora todas elas estão sentadas, juntas, ao redor da fogueira. olhe para elas. elas não te enchem de empolgação? elas não rolam pela sua língua? e não te parece perturbador que a maioria delas nunca surgiria numa tradução?

claro que não há nada impedindo essas palavras de serem usadas numa tradução, e tenho certeza que elas já figuraram em algumas traduções mundo afora. a questão aqui é que palavras como TROMBADINHA e DESCUIDISTA e PULA-VENTANA são estranhas e específicas demais pra jamais serem usadas numa tradução; se assumirmos que a “tradução” é uma função matemática que pega termos num domínio X (ex. inglês) e leva pra uma imagem Y (ex. português), palavras como essa são exemplos de que a função é “não-sobrejetora” -- isto é, são exemplos de que existem elementos na imagem Y os quais não há nenhum “x” que os produza. e se isso não significa nada pra você tudo bem pode seguir pro próximo parágrafo

acho que essa foi a primeira vez na minha vida que eu usei os conceitos de domínio e imagem fora da quinta série

e eu acho isso… Triste ! o português está repleto de palavras originais e estranhas e curiosas, palavras marcadas de gracejo que, se formos pelo caminho da tradução, ficarão no banco durante a maior parte do jogo. falo de palavras como…

d4 / d6 1 2 3 4
1 SAUDADES XODÓ DESTRAMBELHADO ESCANGALHAR
2 TRAQUITANA CAFUNÉ TAGARELA LAMBISGÓIA
3 BICHEIRO GAMBIARRA VUCO-VUCO CAPRICHAR
4 ANTEONTEM FUÇAR PICUINHA FRIORENTO
5 PALERMA SALAFRÁRIO ESTARDALHAÇO SERIGAITA
6 FICANTE VASSOUREIRO QUENTINHA MALANDRO

de novo: dá pra traduzir algumas delas pra inglês? , sem sombra de dúvidas. mas alguma coisa se perde no meio do caminho, seja um contexto cultural, uma graça fonética, ou uma essência meio inexplicável.

e expressões temos várias também:

d20
1A DAR COM PAU11TÁ FEIA A COISA
2CUSPINDO MARIMBONDO12NA HORA DO VAMOS VER
3CRIAR CORAGEM13DIA DE SÃO NUNCA
4MOTIVOS DE FORÇA MAIOR14A PROVA DOS NOVE
5RESUMO DA ÓPERA15SEM EIRA NEM BEIRA
6TROCAR SEIS POR MEIA DÚZIA16MAIS PRA LÁ DO QUE PRA CÁ
7CHEIRANDO A LEITE17NO TEMPO DO RONCA
8ARROZ DE FESTA18CUTUCAR ONÇA COM VARA CURTA
9O CAMINHO DAS PEDRAS19PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA
10IR PRO BELELÉU20DESCULPA QUALQUER COISA

te desafio a rolar uma palavra + uma expressão e usar como tema central de uma aventura!

conclusão

e assim chegamos ao final do texto, momento este em que eu repito minha tese central: todos sabemos que é possível fazer um RPG genuinamente brasileiro se reforçarmos de maneira explícita os temas da cultura do nosso país, mas também -- postulo eu -- é possível alcançá-lo de maneira implícita, usando nossalinguagem de maneira que nunca teria sido usada se partíssemos de qualquer outro idioma.

(postulo, de maneira mais ousada, que é possível fazer isso, teoricamente, sem nem ao menos abandonar a fantasia clássica de D&D!! -- apesar de obras nacionais como Tagmar (com seus RASTREADORES e DUELISTAS) não serem bons exemplos disso.))

vos deixo então com uma pergunta, para que mantenham em mente: se você traduzir sua obra pra outro idioma, ela perde algo de sua essência?

olha na minha cara e me fala que você não quer jogar um Blades in the Dark que se passa no Rio de Janeiro em 1900. você não tem coragem (fonte: ÚLTIMA HORA, 08/02/1956, link)

obrigado a Dedão e Silvia pelo feedback e comentários!

#original #ptbr